sábado, 7 de agosto de 2010

A Devoradora de Gatos

Leitura para casa

Copiar para a folha de papel almaço, cartolina, papel ofício, papel cartão ou qualquer outro tipo de folha que você preferir. Nunca faça em folha de papel higiênico.
Favor escrever com caneta de cor preta ou azul. Compre uma caneta de marca boa, para não usar mais de uma no decorrer da atividade.
Faça em domicílio, sem acompanhante. Não tire xerox de seu coleguinha, pelo menos tenha o cuidado de cobrir com caneta para não transparecer.
Não esqueça de colocar seu nome no canto superior da página, margem direita, a três centímetros com letras de tamanho 0,5 cm. Bem visíveis para a professora poder enxergar.
Entrega no dia 07. Deste mês e deste ano, por favor!

A Devoradora de Gatos

Cheguei à casa da minha amiga. Ainda era de manhã e tínhamos muito trabalho da escola acumulado para fazermos juntas. Primeiramente, ela me ofereceu um chá que eu aceitei agradecida.
Mas, quando provei o líquido da xícara, que estava fumegante, notei um gosto diferente... Eu não reconhecia o sabor do chá. Então, perguntei:
--Ana, de que é este chá? Tem um gosto diferente...
--É chá de Guaturaba-arana. Uma erva que minha tia tem em seu quintal. É raríssima. Faz bem para a saúde, previne muitas doenças.
--É mesmo? Nossa! Nunca tinha ouvido falar dessa erva... --Tomei o chá sossegadamente.
As horas passaram e fomos para o quarto de Ana. Sentamos na cama.
Neste momento, eu estava me sentindo estranha. Um pouco diferente... Não sei explicar, mas fiquei com uma fome terrível.
--Sabe o que dizem por aí?—perguntou Ana, numa voz sussurrante. Parecia prestes a me contar um segredo e fiquei atenta para ouvir.
--Não, o quê?
--Dizem que sou uma bruxa. –Ela deu um sorriso estranho.
Senti um arrepio e fiquei com medo. A minha amiga me pareceu obscura, assustadoramente estranha.
--Eu... Eu... Vou ao banheiro!—fiz menção de me levantar, mas ela puxou meu braço e olhando nos meus olhos seriamente disse:
--Na verdade, eu sou!
--Como?
Ela ficou séria. Eu soltei um riso nervoso.
--Ah, não pode estar falando sério!—tentei levar como uma piada, mas não tinha graça nenhuma.
Comecei a respirar aceleradamente.
--Eu sei que parece loucura... – ela disse – Mas, eu sou uma bruxa e quero que você também se torne uma!
--O quê?!
--Não sabe o que está perdendo. Ser uma bruxa tem seus privilégios, conhecemos poções do amor, venenos mortais, alguns truques, alguns segredos...
--Como nos filmes? —Lembrei-me do chá com gosto estranho... O que será que tinha nele? Preferi não pensar nisso.
--Não! É diferente...
Fiquei pensativa. Comecei a gostar da idéia. Será que era uma oferta tão boa assim? Quantas garotas da escola eram bruxas? Seria uma oferta especial para um pequeno número de pessoas?
--Aceito!—exclamei.
Ela deu um sorriso satisfeito.
--Para isso, você terá que fazer uma coisa? Uma espécie de ritual de iniciação à bruxaria.
--O quê?—fiquei um pouco apreensiva. Se fosse algo muito louco eu não faria de jeito nenhum.
--Na verdade, não é nenhuma loucura.
--Ah, tá! – fiquei aliviada. –Mas, o que é?
--Você tem que comer uma coisa... – ela olhou para o seu gato. Era um gato preto, muito feio. Mas, eu estava com tanta fome que não sei dizer como... Senti uma vontade enorme de comê-lo.
--Aceito!—ela pegou o gato e o passou para mim. Dei uma mordida na barriga do gato, comecei a devorá-lo. O bichano tentou escapar, mas faleceu na terceira mordida... Tinha um gosto bom. Quanto mais comia, mais tinha vontade de comer.
Não sobrou quase nada do animal, apenas os ossos. Lambi os dedos, finalmente satisfeita.
Ana olhou para mim e sorriu em aprovação.
-- Muito bem, agora chegou a parte mais fácil.
--Que parte?
--A parte em que você me beija!—ela disse, maliciosamente.
--O quê?
Dei uma tapa em Ana. Ela se desequilibrou, caindo no chão de mau jeito. Soltou um gemido, devia ter se machucado.
Sai correndo dali. Não sabia que as bruxas eram lésbicas. Eu podia ser uma bruxa se quisesse, mas não poderia mudar minha sexualidade.
Fui para a casa da minha tia e fiquei por lá escondida até amanhecer.
Fiquei sabendo por uma amiga que Ana havia quebrado a perna e estava de gesso. Comecei a rir comigo mesma. Se uma bruxa não seria capaz de consertar uma perna, o que mais ela não poderia fazer? Pensei que as bruxas fossem mais fortes e não se quebrassem assim facilmente.
Enfim, perdi o medo por bruxas. Quando me encontrei com Ana na escola olhei para a perna dela com dó.
Coitada! Tão fraquinha!
Nunca mais nos falamos.
Nunca mais encontrei outra bruxa.
Cheguei a comer mais dois gatos depois daquele. Comi o gato da minha tia na mesma noite do dia dos fatos. Mas, não apenas os gatos, outros pequenos animais também – o que não chegou a ser uma experiência tão deliciosa quanto comer felinos.
Nunca me perguntei no que havia me tornado. Mas, acho que “devoradora de gatos” é o termo certo para mim.
(31 de julho de 2010, Manaus-AM, Mônica Milena).

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