segunda-feira, 4 de março de 2013

Como Matar Pombos, Monica Milena


Como matar pombos, Monica Milena


Eram três da manhã e Fábio ainda estava acordado. Não conseguia dormir. O vizinho do apartamento de cima andava de um lado para outro, fazendo um barulho irritante com sua bengala.
Ao lado, havia jovens recém- casados que ora exalavam cheiro de sexo pelas paredes, e os gemidos, apesar de baixos, também lhe irritavam.
Da vizinha do lado, não se ouvia muita coisa, mas irritava seu silencio. De vez em quando colocava uma vitrola para tocar musica clássica, parecia que a tristeza se apossava de sua pessoa, não queria contagiar-se e saía para dar uma volta.
No corredor do prédio, primeiro o tapete de cor marrom-merda. Que péssimo gosto! Lembrava-se de seu falecido pai reclamar também do tapete. Coisa feia! Não lhe agradava aos olhos.
Apertava o botão com certo receio. Quantos germes não teriam ali? Seu Roberto, aquele velho nojento e tarado devia ter infectado o botão. Também aquela menina irritante do 207, devia ter passado meleca ali, ou mesmo resquícios de fezes ou até bactérias que causam doença...
Esperava o maldito elevador. Barulhento, parecia que ia emperrar entre o primeiro e o segundo andar. Odiava a ideia de ficar preso e ter que processar o prédio. Malditos! Por que não ajeitam isso?
As portas do elevador se abriram. Magda estava à sua frente. Mulher insuportável. Não sabia a hora certa de lhe falar de Cristo. Era sempre em momentos inoportunos.  Cumprimentou e apressou os passos rumo à saída antes que ela dissesse alguma coisa.
Só havia um lugar que lhe agradava. Sim, a biblioteca pública. Entrava e sentia-se finalmente em paz. Cheirava os livros velhos com um prazer que lhe avivava e lhe dava forças para ter que voltar ao apartamento e resistir ao tormento da vida cotidiana.
Só saía dali quando lia boa parte de algum livro. Gostava dos corredores onde não havia ninguém. Se alguém surgisse no mesmo corredor, ficava aborrecido e seguia até outro corredor vazio. Ficava desesperado se não encontrasse nenhum corredor vazio. Aí era sair dali e tomar ar puro em frente à biblioteca.
Havia um banco, uma espécie de pracinha. Abandonada. Não havia pipoqueiro, crianças gripadas, nem mulheres com carrinhos de bebês ou gente correndo pingando suor... Era calma.
Sentado no banco, adorava ver os pombos que de vez em quando apareciam catando algo para comer no chão. Às vezes jogava alguma coisa para eles. Havia o seu preferido, Molico, chamava-o assim.  Era malhado, branco com manchas pretas. Pombos eram os únicos animais que lhe agradavam. Odiava gatos, cachorros, periquitos, peixes...
Voltando ao apartamento jogou-se no sofá e tirou um cochilo.
Acordou poucos minutos depois com um barulho esquisito em sua janela. Era um pombo. Não ligou.
 Mas, no dia seguinte, enquanto digitava um e-mail a um amigo. Ouviu outra vez o barulho na janela. Era outro pombo.
Dessa vez a janela estava aberta. Foi correndo espantá-lo e fechar a janela. Mas, o pombo passou por ele e foi alojar-se no alto do armário de livros.
Tentou pegar algo para tirá-lo dali. Pegou uma vassoura e tentou cutucar o pombo.
Acertou em cheio. O bicho, no entanto, caiu da estante sem vida.
Recolheu o pombo e jogou-o pela janela. Nem se importando onde, ou na cabeça de quem, ele iria cair.
Achou o episódio grotesco e resolveu assistir sua série favorita e distrair-se.  Quando a madrugada foi se aproximando, retirou-se para dormir.
Enquanto dormia ouviu, em certo momento, um barulho na cozinha. Podia ser um rato, sempre tinha que colocar venenos para matá-los.
Acendeu a luz. Havia três pombos em sua cozinha. Um em cima do armário. O outro em cima da mesa.  O pote com amendoim estava derrubado no chão e o outro pombo remexendo nele, motivo do barulho. Perguntou-se como entraram ali e viu que deixara a janela novamente aberta, afinal, nunca tivera problemas em deixá-la assim.
Coçou a cabeça. E agora? Mataria os três pombos? Pensou, pensou. Decidiu que não os mataria, tentou pegar um deles com as mãos. Mas batiam asas fugindo, indo do armário, para o fogão, do fogão para mesa. Até que ele cansou. Decidiu dormir e ver o que faria para livrar-se deles pela manhã.
No dia seguinte, quando acordou, um dos pombos já estava em seu quarto. Levantou-se irritado.
Maldição! Pensou. Esquecera de fechar a janela, além do pombo em seu quarto havia mais três pelo apartamento.
Fechou a janela antes que entrassem mais pombos por ali. Saiu de casa, iria comprar veneno de rato para misturar com milho e matar os quatro.
Dez minutos depois já estava em casa. Abriu a porta. Foi até a cozinha. Não havia nenhum deles por ali. Procurou pelo apartamento todo e nada. Sumiram.
Não esquecera a janela aberta... Como sumiram?
Dois dias depois, nenhum deles havia aparecido. Estava voltando de uma de suas voltinhas até o mercado quando abriu a porta do apartamento e encontrou um pombo morto na sala. Devia estar doente, aquele miserável!
Colocou o bicho morto num saco preto e foi jogá-lo no lixo do outro lado da rua. Não tinha ideia de como aquele infeliz tinha entrando ali. Começou a suspeitar que alguém estivesse entrando em seu apartamento e fazendo-lhe essas palhaçadas.
Chamou um chaveiro para trocar a fechadura da porta. Mais tranqüilo, voltou a sua rotina normal.
Pegou um livro e começou a ler. Nesses dias, os vizinhos até que estavam calados. Melhor para ele que não tinha que ouvir os barulhos mais diversos desses humanos insuportáveis.
Horas depois, enquanto distraía-se com o jornal local da TV, seu amigo ligou-o avisando que iria lhe fazer uma visita enquanto estava na cidade.
Foi esperá-lo no hall do prédio. Não se atrasou, surgindo na hora marcada. Subiram o elevador juntos.
Abriu a porta do apartamento. Deixou seu amigo à vontade, enquanto foi buscar uma xícara de café.
Abriu a despensa para pegar algumas torradas e sobressaltou-se ao ver um pombo ali. Quietinho como se dormisse. Voltou para a sala. Disfarçando sua raiva, e tentando concentrar-se no que seu amigo estava lhe dizendo.
Mas, em certos momentos, tinha certeza de ouvir barulhos na cozinha. Disfarçava.
Até que não pode mais disfarçar. Pediu licença ao colega e foi ver o que estava acontecendo.
Havia vários pombos espalhados. Eram brancos, malhados, pretos, grandes e pequenos. Um espetáculo de horror preto e branco...
“Malditos pombos!” gritou.
“O que você disse?” perguntou seu amigo surgindo na cozinha, já havia notado que Fábio não estava bem.
Achou-o na entrada da cozinha, olhando para diversos cantos com uma cara estranha de assustado. “O que foi?” perguntou, encarando-o seriamente. Sem entender o que estava acontecendo.
Fábio nem ligou. Pegou a vassoura novamente e ficou dando surras com ela no ar. Em seu delírio, matava os pombos que voavam acima de sua cabeça como urubus.
(Manaus, AM. 2 de março de 2013. Monica Milena)




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