quinta-feira, 14 de setembro de 2017

O Suspeito


O Suspeito



Eu seguia para meu apartamento. Tudo estava normal, até que adentrei ao prédio e peguei o elevador. Um sujeito entrou comigo.

Reparei que o cara ao meu lado não era nenhum morador do prédio que eu conhecia. Era um estranho.

Ele mexeu no paletó e percebi que havia uma arma na cintura dele.

Fiquei com medo. O cara tinha a face de um assassino. Era mal encarado, sim, assustador.

--Algum problema?—ele perguntou, percebendo que eu o olhava assustado.

--Não... Imagina! Está tudo bem!—respondi.

Tentei manter a maior distancia possível, dentro de um elevador, do sujeito. Ele pareceu não notar minha reação, estava tranquilo e seguro.

As portas do elevador se abriram. Para minha surpresa, o cara ficara no mesmo andar que eu.

--Você poderia me informar onde fica o apartamento 302?

--Acho que é por ali!—apontei. O sujeito seguiu pela direção por mim indicada.

Assim que o perdi de vista fiquei mais tranquilo. Porém, teria que tomar alguma atitude, não poderia deixar que um sujeito armado caminhasse tranquilamente pelo prédio. Havia famílias morando ali, crianças, pessoas de bem. E, aquele sujeito, era uma ameaça, um suspeito...

Decidi que iria voltar para a recepção e informar aos seguranças sobre o estranho. Peguei o elevador de volta e desci à recepção.

Assim que cheguei à mesa da recepcionista informei sobre o homem armado indo ao 302. A moça chamou os seguranças e mandou que fossem depressa pegar o sujeito.

Algumas pessoas perguntaram o que estava acontecendo. Eu disse tudo e elas ficaram assustadas. Em poucos segundos, umas dez pessoas, moradores do prédio e curiosos, se juntaram na entrada.

Todo mundo esperava a captura do sujeito.

Cinco minutos mais tarde o homem apareceu junto com os seguranças. Ele estava furioso, dava para perceber. E os seguranças pareciam envergonhados, pedindo desculpas ao sujeito.

As pessoas começaram a aplaudir os seguranças pelo belo trabalho que eles haviam feito. Um dos homens da seguranças pediu silencio.

--Gente, não é nada disso que vocês estão pensando... Este aqui é o detetive Noam. Não é perigoso, não é marginal... Houve um equívoco aqui!

--É isso mesmo! Eu vim para conversar com uma testemunha de um crime que ocorreu semana passada... –disse o detetive.

Todo mundo olhou para mim...

--Você!—disse o detetive—É um idiota mesmo! Atrapalhou meu trabalho e fez maior confusão aqui embaixo.

Fiquei vermelho de vergonha e fugi dali.

Três horas depois voltei ao prédio, estava tudo calmo e peguei o elevador. Um homem negro, de óculos escuros e jaqueta de couro entrou junto comigo.

Olhei para ele e percebi que estava armado. O homem não parecia nenhuma ameaça, por isso, não me apavorei e nem fiz nada. Eu não faria outro escândalo como o anterior. Tinha aprendido a lição.

Sai tranquilamente.

--Ei, você, poderia me informar onde fica o 302?—indagou ele.

--É por ali!—apontei. O sujeito seguiu pela direção que eu mostrei.

Fui para o meu apartamento. Tomei um banho e dormi.

Acordei com alguém batendo na porta. Era um policial.

--O prédio está sendo evacuado... – disse ele. –Deixe este local imediatamente!

--Mas, por quê?—indaguei.

--Ouve um homicídio no 302. Uma testemunha que sabia muito foi eliminada pelo assassino...

Fiquei boquiaberto.

Deixei o apartamento. Um monte de gente estava amontoado na entrada, os policiais tentavam afastar todo mundo, mas as pessoas queriam ver de perto o acontecimento...

O corpo saiu dentro do saco e foi direto para o IML.

Os policiais interrogaram todos os moradores do prédio. Quando chegou minha vez o policial me perguntou:

--Você viu alguma coisa? Suspeitou de alguma coisa? Viu algum estranho no prédio?

--Não, senhor!—respondi. –Não vi nada. Eu estava dormindo.

Menti. Pois, já tinham me chamado de idiota uma vez naquele dia. Não deixaria que me chamassem de novo.

Soube, no dia seguinte, que a testemunha iria contar algo muito importante justamente na hora em que os seguranças interromperam o detetive Noam. O detetive ficara de voltar no dia seguinte para interrogar a testemunha. Infelizmente, o assassino foi mais rápido.



Moral da história: Não há moral nenhuma. Mas, podemos dizer, com toda certeza, que o personagem impediu que o detetive fizesse seu trabalho, mas não interrompeu o trabalho do assassino, porque o assassino tinha cara de gente boa e o policial tinha cara de bandido. Foi difícil separar um do outro.

(31 de maio de 2010, Manaus-AM, Mônica Milena).

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Achocolatado, Monica Milena

Então, estavam todos preparados para a manha de natal. Alma sentou-se perto do rádio e ficou escutando algumas músicas que tocavam. Enquanto sua mãe preparava o achocolatado com biscoitos para a ceia de natal.
Era uma família simples.
Alma escrevera sua carta ao papai noel, pedira uma boneca. Apesar de pobres, sua mãe comprara uma pequena boneca para colocar perto de sua cama na manha de natal, como se fosse o velho noel.
A avó de Alma já havia falecido. A mãe de alma, chamava-se Amélia, era mãe solteira, lavava roupas para ganhar o sustento. O pai de Alma a engravidara, era um coronel. Quando ficara gestante, tinha exatos vinte e nove anos, e a família com medo da fofoca alheia, mandou que fosse para o interior antes que notassem a barriga. Foram tempos difíceis, não havia muitas coisas para o bebê  que nasceu em casa.
Voltou para Manaus, o bebê nos braços e família disse aos vizinhos que haviam doado o recém nascido à Amélia para que criassem.
Alma foi então criada como sua irmã para os vizinhos e estranhos. Até acreditara que sua mãe fosse sua mesmo irmã até certa idade.
Crescera. E as manhas de natal foram assim, com achocolato e biscoitos e o presentinho humilde do papai noel. Até descobrir que não existia papai noel, e sim uma mãe que buscava agradar a filha com um pequeno mimo perto de sua cama.
Alma, já com oitenta anos, recorda-se desta manha de natal, em que havia pouco, com união e paz, uma paz serena e doce.


segunda-feira, 22 de setembro de 2014

O Canivete, Mônica Milena



Seu Bima andava de um lado a outro, fumava um cigarro e pensava já na hora de ir pra casa. O tédio dali era cruel e aquele lugar fedia a mijo. Um dos presos o encarava com ódio. Pobre animal.
Este mês tinha que economizar, pensava. Ainda não havia tido tempo de comprar o presente de aniversário de sua filha mais nova. Seria na terça, e ela já havia pedido a boneca há algum tempo. Teria que guardar o dinheiro do aluguel, das dividas, da cachaça e do brinquedo da pequena. Se bem que, sua filha mais velha também estava precisando de um sapato novo pra ir a escola. Daria um jeito...
--Ei!—um dos presos o chamava, atrapalhando seu devaneio. Aproximou-se com cautela. –O que é?
--Me dá um copo de água. Estou com sede.
--Não posso!—disse ele. Observou o homem, parecia ter por volta de cinquenta anos, pele branca, porém meio queimada do sol. Ar de gente sofrida, cara de cansaço. Pobre infeliz.
--Estou com sede — repetiu o sujeito.
Seu Bima não era um homem ruim. Olhou pro lado, não havia nenhum outro soldado por ali. Saiu.
Voltou algum tempo depois com uma caneca de água e ofereceu ao preso.
--Aqui está!
O preso tomou o copo de água. Mas, no momento de pegar a caneca de volta. Surpreendeu o outro com um golpe, pegou seu braço e quase a torcê-lo puxava-o contra as grades, fazendo menção de pegar o molho de chaves em seu bolso. Seu Bima, também rapidamente, com a mão livre, pegou seu canivete e apunhalou o braço do homem, que soltou um grito, chamando a atenção dos outros presos e dos outros guardas.
Foi expulso do serviço, não soubera ao certo o que ocorreu com o presidiário. Já que perdeu bastante sangue do pulso.
Passaram-se alguns meses e novamente teve outro episódio em que sacou seu canivete.
Estava ele a andar de volta pra casa, depois do trabalho como funcionário público de uma instituição. Tranquilo, sóbrio e com alguns trocados no bolso para inteirar uma janta com a família. Não demoraria muito a chegar a casa.
Mas, no fim da esquina surgiu um sujeito esquisito, já o conhecia de vista, por ter fama de perigoso na área.
Colocou a mão no canivete.
Quando o sujeito se aproximou, e quis falar alguma coisa. Reagiu rapidamente.
Segurou o homem pelo braço e, com a outra mão pegando no canivete, acertou-o. Este ainda tentou se soltar do golpe de braço, dando um giro. O canivete acertou a bunda do sujeito, da banda direita.
Gritou horrorizado.
--Maldito!
Seu Bima deixou o cara ali mesmo e saiu correndo pra casa. Chamaram-no, alegou legítima defesa.
Bicho. Homem bruto. Agia sem pensar duas vezes.
Sua mulher e ele um dia brigaram. E aí sim seu comportamento agressivo chegou ao limite. Estavam a discutir, seu Bima estava com ciúmes de um homem que falara com ela na igreja.
A briga ganhou força, trazendo a tona outras discussões passadas e xingamentos.
Em um momento de loucura e raiva, pegou seu canivete e atacou a mulher, que por reflexo, tentou proteger-se com o braço. O canivete fizera um pequeno corte de raspão no braço direito. Choramingando saiu correndo porta afora, levando a filha mais velha consigo que estava em casa. Partiu para a casa da irmã.
Seu Bima tremendo ainda, nervoso. Viu o canivete ensanguentado e em oração, pediu perdão de Deus por tão grande pecado.
Resolveu livrar-se do canivete.
Jogara-o pela janela.
Um dos moleques achou o objeto e vendeu nas esquina a outro garoto mais velho.
Trinta anos depois, a mulher de Seu Bima, já falecido, mostrava às netas a cicatriz que ainda tinha no braço, do golpe do canivete.

(Mônica Milena, 15 de setembro de 2014, Manaus-AM)
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