segunda-feira, 22 de setembro de 2014

O Canivete, Mônica Milena



Seu Bima andava de um lado a outro, fumava um cigarro e pensava já na hora de ir pra casa. O tédio dali era cruel e aquele lugar fedia a mijo. Um dos presos o encarava com ódio. Pobre animal.
Este mês tinha que economizar, pensava. Ainda não havia tido tempo de comprar o presente de aniversário de sua filha mais nova. Seria na terça, e ela já havia pedido a boneca há algum tempo. Teria que guardar o dinheiro do aluguel, das dividas, da cachaça e do brinquedo da pequena. Se bem que, sua filha mais velha também estava precisando de um sapato novo pra ir a escola. Daria um jeito...
--Ei!—um dos presos o chamava, atrapalhando seu devaneio. Aproximou-se com cautela. –O que é?
--Me dá um copo de água. Estou com sede.
--Não posso!—disse ele. Observou o homem, parecia ter por volta de cinquenta anos, pele branca, porém meio queimada do sol. Ar de gente sofrida, cara de cansaço. Pobre infeliz.
--Estou com sede — repetiu o sujeito.
Seu Bima não era um homem ruim. Olhou pro lado, não havia nenhum outro soldado por ali. Saiu.
Voltou algum tempo depois com uma caneca de água e ofereceu ao preso.
--Aqui está!
O preso tomou o copo de água. Mas, no momento de pegar a caneca de volta. Surpreendeu o outro com um golpe, pegou seu braço e quase a torcê-lo puxava-o contra as grades, fazendo menção de pegar o molho de chaves em seu bolso. Seu Bima, também rapidamente, com a mão livre, pegou seu canivete e apunhalou o braço do homem, que soltou um grito, chamando a atenção dos outros presos e dos outros guardas.
Foi expulso do serviço, não soubera ao certo o que ocorreu com o presidiário. Já que perdeu bastante sangue do pulso.
Passaram-se alguns meses e novamente teve outro episódio em que sacou seu canivete.
Estava ele a andar de volta pra casa, depois do trabalho como funcionário público de uma instituição. Tranquilo, sóbrio e com alguns trocados no bolso para inteirar uma janta com a família. Não demoraria muito a chegar a casa.
Mas, no fim da esquina surgiu um sujeito esquisito, já o conhecia de vista, por ter fama de perigoso na área.
Colocou a mão no canivete.
Quando o sujeito se aproximou, e quis falar alguma coisa. Reagiu rapidamente.
Segurou o homem pelo braço e com a outra mão pegando o canivete acertou-o, este ainda tentou se soltar do golpe de braço, dando um giro. O canivete acertou a bunda do sujeito da banda direita.
Gritou horrorizado.
--Maldito!
Seu Bima deixou o cara ali mesmo e saiu correndo pra casa. Chamaram-no, alegou legítima defesa.
Bicho. Homem bruto. Agia sem pensar duas vezes.
Sua mulher e ele um dia brigaram. E aí sim seu comportamento agressivo chegou ao limite. Estavam a discutir, seu Bima estava com ciúmes de um homem que falara com ela na igreja.
A briga ganhou força, trazendo a tona outras discussões passadas e xingamentos.
Em um momento de loucura e raiva, pegou seu canivete e atacou a mulher, que por reflexo, tentou protege-se com o braço. O canivete fizera um pequeno corte de raspão no braço direito. Choramingando saiu correndo porta afora, levando a filha mais velha consigo que estava em casa. Partiu para a casa da irmã.
Seu Bima tremendo ainda, nervoso. Viu o canivete ensanguentado e em oração, pediu perdão de Deus por tão grande pecado.
Resolveu livrar-se do canivete.
Jogara-o pela janela.
Um dos moleques achou o objeto e vendeu nas esquina a outro garoto mais velho.
Trinta anos depois, a mulher de Seu Bima, já falecido, mostrava às netas a cicatriz que ainda tinha no braço, do golpe do canivete.

(Mônica Milena, 15 de setembro de 2014, Manaus-AM)
1.     

O Coronel, Mônica Milena



Eliana era uma moça bonita que gostava de comer goiabas da frondosa árvore de seu quintal. Cercada por suas irmãs e irmãos, brincavam todos os dias, depois de estudar as letras – estudavam em casa. Família humilde. Moravam na parte de trás de um terreno que era de sua tia mais velha. Sua mãe era lavadeira e seu pai trabalhava na feira vendendo verduras. A casa era de madeira velha, em alguns pontos do telhado, o cupim havia se espalhado. As tábuas faziam estalos, principalmente a noite quando alguém se levantava para tomar água do pote – não tinham geladeira.
Ficara moça ali, na humildade. Comiam o pouco que seu pai trazia pra casa, Eliana era a do meio de 5 filhos, o mais velho com quinze anos já trabalhava sendo auxiliar de ferreiro ou pedreiro.
O que ela mais gostava era de comer goiabada com farinha depois do almoço, normalmente ovo, feijão e arroz.
Um dia, acompanhou seu pai a feira para ajudá-lo com as vendas. Quando passou ali o coronel Palheta. Este era um homem sério, culto, falava francês e espanhol, era faixa preta em judô.
Quando viu Eliana, usando um vestido velho, meio rasgado, mas que dava um charme interessante aos seus seios, encantou-se. Aproximou-se da moça, que tímida perguntou o que ele queria.
Ele lhe fez elogios. Ela também se simpatizou dele.
Ele lhe chamou para tomar sorvete ou dar uma volta pela praça, ela não aceitaria de primeira. Logo ele voltou algumas vezes por ali, com a esperança de vê-la. Demorou alguns dias para a moça ir novamente à feira com o pai. E lá passou novamente o coronel.
Com o tempo, começou a corresponder. Aceitou o convite de se encontrarem.
Eliana se enamorou pelo coronel.
Pouco tempo se passou e descobriu através de sua irmã que ele era casado, havia deixado a esposa em outro município, mas ela havia chegado a Manaus há dois dias.   
O coronel apareceu, tentou animá-la, porém muito triste não queria acreditar que tivera tamanha má sorte, estava grávida. Ele assegurou de que ela não deixaria de receber sua ajuda, mas não era o bastante. Uma vez por semana recebia um dinheiro que servia para a comida. Comprou para o bebê algumas roupinhas, de cor neutra, já que nessa época nem se ouvia falar do exame de ultrassom.
O bebê nasceu, era uma menina.
O coronel ainda lhe visitava, com promessas de que se separaria da mulher e logo estariam casados.
Eliana já não morava com os pais, ganhara uma casa humilde do coronel para criar a filha. E trabalha como lavadeira para algumas famílias da classe abastada.
A menina completou 3 anos. E Eliana sentiu novamente os sintomas da gravidez, era mais uma menina.
Seria justo que a verdade lhe fosse dita, ou que a mesma aceitasse o fato de que nada seria como o coronel prometera. Tristes ilusões. E a desilusão só aumentava com a chegada da terceira filha após outros três anos.
Já com as 3 filhas nascidas e por volta de trinta e nove anos. As coisas não eram nada belas, as filhas lhe ajudavam lavando, engomando e passando as roupas, encomendadas pelos clientes. A encomenda às vezes era tanta que ninguém tinha tempo de largar o ferro para preparar sequer um café, já que o fogão à lenha dava trabalho. A fome era algo presente na vida delas. Quatro mulheres trabalhando o dia todo, com poucos momentos de descanso. As crianças estudavam tardiamente, a mais velha fora para a escola aos sete anos, e as outras com cinco e seis anos. Chegavam da escola e já iam ajudar a mãe, que apesar de não ter tanta idade, vinha envelhecendo precocemente pela vida difícil e dura que tinha.
O coronel em uma de suas idas ao interior de Manaus, conhecera uma moça muito bonita, que despertara seus desejos. Trouxe-a até Manaus e, deixando a esposa que até o momento só lhe dava raiva, casou-se com ela.
Eliana não pode acreditar em tamanha desgraça que lhe caía sobre sua casa. Mãe das três filhas do coronel, esperava que um dia se casassem, e ele arruma uma rapariga bem mais nova que ela e se casa de um dia para o outro. Caíra num longo pranto, dolorido. E logo a doença surgiu, já não se sentia bem.
O coronel agora com sua nova esposa, iam à igreja todos os domingos.
Logo a filha mais velha chegou aos vinte anos e fora prometida a um homem para casamento.
(Manaus-AM, 22 de setembro de 2014, Mônica Milena)
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...